Mais um dia amanhece. Abro os olhos e a primeira que vejo é o reflexo do sol na parede branca desse quarto. Resolvo mudar de posição e dou de cara com você. Em um porta-retrato, nos tempos em que éramos felizes. A saudade que bate, não sei explicar, mais é que eu estava precisando agora de você fora desse porta-retrato e corpo a corpo comigo, embaixo desse lençol. Sentir o seu cheiro de bebê e entranhar meus dedos em seus cabelos, é a melhor forma que vejo de acordar. Mas você não está aqui. Eu não sou mais você. Levanto e vou direto para o banho lavar qualquer lembrança com água-fria, depois me olho no espelho por mais cinco minutos antes de começar a tirar a barba. É que não tem mais graça tê-la sem você para acariciar e dizer o quanto gosta de mim barbado. Lembro da vez que você fez a cara mais fofa ao quase implorar para eu não tirá-la; quase corto meu rosto. Vou até a cozinha e preparo um suco de manga, porque maracujá é coisa sua. Pra acalmar o coração, você dizia. E sinto uma tremenda falta da sua mania de queimar o pão na chapa e comê-lo queimado com geleia de framboesa. Meu estômago revira. É melhor sair sem comer nada. Até o cachorro sente a sua falta, ele nunca mais foi tão alegre depois que você partiu. Agora ele mal levanta a cabeça quando dou bom dia.
Sento no sofá e crio coragem para ir trabalhar mais um dia. Hoje completa 305 dias que a minha pequena arrumou suas coisas e foi embora. Ela disse que estava difícil conviver comigo. Que nosso amor havia esfriado e não passávamos de dois estranhos dividindo o mesmo teto. Que minha profissão, sua profissão, não encaixavam horários e ela passava a maior parte do tempo sozinha. O que eu posso fazer? Eu resolvi salvar vidas pelo mundo, enquanto você prefere se enfiar em uma sala com milhares de homens e andar com uma arma na cintura. E quando eu estava em casa, você estava engolindo livros e mais livros de direito enquanto eu só queria você aquecendo o lado esquerdo do meu peito. A culpa não foi toda minha, nem sua, nem da vida, nem do cachorro. Acontece que acima do nosso amor, a gente nunca deveria estar junto. O que começou errado, sempre será errado. Mais ou menos assim. Eu só queria uma companhia pra fumar, enquanto você só queria sentar. Naquele momento a gente deveria ter percebido que nunca deveríamos levar a frente o que estava acontecendo ali.
Agora eu sinto até falta da sua mania de cantar alto no banheiro as suas músicas e eu gritar que você nunca vai conseguir falar rápido igual ao Ed Sheeran nas músicas e que as canções do John Mayer me deixam depressivo. E quando você escondia meus discos do Slipknot porque você detestava que eu escutasse no último volume, mas eu adorava sua cara de nojo e fazia de implicância mesmo.
Pequena princesa de um metro e meio, eu só quero que você volte. Estou aqui deitado no nosso sofá, falando comigo mesmo, lembrando das nossas coisas e querendo você aqui. Sendo certo ou errado. Com distância ou sem distância. Com Ed Sheeran ou John Mayer. Com viagens a Londres, Brasília ou apenas uma volta na praia da Barra. Eu não tenho nem forças para pegar o celular e te ligar. Eu não ligo se você é um pequeno passarinho que sua única jaula é seu trabalho. Eu preciso de você! O cachorro também. Vem pro nosso sofá e me ajuda a ter forças pra voltar ao trabalho.
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